Hoje, o ambiente escolar enfrenta desafios que vão além de apenas passar conhecimento. Gestores, educadores, estudantes e famílias enfrentam demandas difíceis, como o desconforto, a agressividade e a falta de interesse. A educação, em sua essência, é um processo de formação do sujeito como todo, o que exige um olhar que contemple as forças invisíveis que atuam no psiquismo humano.
Conforme Sigmund Freud, o pai da psicanálise, educar era uma das "três tarefas impossíveis", ao lado de governar e curar. Essa afirmação não expressa um sinal de frustração, mas sim um profundo reconhecimento das forças inconscientes e da complexidade intrínseca à formação humana. A psicanálise, ao desvendar o inconsciente, oferece um olhar para compreender os conflitos e desejos reprimidos que moldam o comportamento, tanto do educador quanto do sujeito.
Um dos herdeiros mais proeminentes do pensamento freudiano, Donald Woods Winnicott, expandiu esse olhar ao dar destaque à importância do ambiente. Sua teoria, decorrente de sua prática como pediatra, apresenta que a formação da personalidade está diretamente conectada à qualidade da relação e do sustento emocional oferecidos no início da vida.
Considerando isso, este texto convida a aprofundar o encontro entre a psicanálise e a educação, refletindo como os conceitos de Freud e Winnicott podem iluminar a origem da violência escolar, redefinir o papel do educador e resgatar o poder transformador da criatividade no processo de aprendizagem.
Deprivação e AgressividadeO Inconsciente na Sala de Aula
A violência nas escolas é um fenômeno complexo, que envolve várias possibilidades de compreensão. A abordagem psicanalítica nos ajuda a enxergar além do comportamento aparente. Freud, em seu livro "Além do Princípio do Prazer", apresentou a ideia da pulsão de morte — ou seja, uma força interna que leva à agressividade e à destruição. No ambiente escolar, essa pulsão não se manifesta apenas em atos de bullying ou agressão física, mas também em formas mais sutis de autodestruição, como a apatia, o desinteresse e a evasão escolar.
A psicanálise entende que a violência é a exteriorização de uma tensão interna, um sintoma de um conflito inconsciente, e não o motivo primário do problema. O educador, ao legitimar esse pensamento, é convidado a ir além da simples punição e a investigar a origem do mal-estar. É um mediador de conflitos inconscientes que se manifestam na escola.
Ao complementar a visão de Freud, Winnicott adotou o conceito de deprivação que é o descuido do ambiente em suprir as condições de sustentação e acolhimento necessárias para o desenvolvimento saudável. Assim, Winnicott cria uma conexão essencial entre a força endógena que refere-se a uma estimulação interna constante, de origem somática (corporal), que pressiona o aparelho psíquico e exige trabalho para ser descarregada ou satisfeita e na falha exógena que refere-se a falhas no ambiente, ou seja, situações externas, reais e traumáticas que impactam o desenvolvimento psíquico do sujeito.
Segundo Winnicott a agressividade não é um comportamento final, mas uma forma de comunicação, uma esperança de que o ambiente reaja e o compreenda. Uma resposta violenta ou punitiva por parte da instituição escolar apenas confirma a falha, enquanto uma resposta de acolhimento pode iniciar o processo de reparação. Por exemplo: um estudante que sente-se desprotegido, ignorado ou hostilizado em um ambiente falho pode desenvolver um comportamento antissocial como uma tentativa desesperada de "encontrar o objeto perdido" ou de chamar a atenção para sua necessidade de sustentação. Portanto, a violência escolar pode ser vista como uma manifestação direta da deprivação ambiental.
Como Construir um Ambiente Suficientemente Bom?O Educador como Agente de Acolhimento (Holding)
O educador na visão winnicottiana se amplia significativamente. O conceito de holding (sustentação ou acolhimento) vai além do ato físico de conter e estende-se ao apoio emocional e à sensibilidade necessária para que o educador "compreenda" as necessidades do estudante. O lugar de ser uma presença estável e previsível, permitindo ao estudante sentir-se seguro para existir e se expressar.
A "mãe suficientemente boa" de Winnicott é uma metáfora que pode ser aplicada ao contexto escolar, propondo o conceito de um "educador suficientemente bom". Este educador não é perfeito, mas tem a capacidade de oferecer um ambiente seguro e previsível para que o estudante possa se desenvolver. O que é fundamental nesse conceito é que a falha do educador também é importante. Quando este comete um erro ou falha em atender uma necessidade, e o aluno consegue vivenciar e sobreviver a essa falha, ele aprende gradualmente a lidar com a desilusão e com a realidade externa, um passo fundamental para o amadurecimento. O holding na educação não é sobre superproteção, é sobre uma presença que permite ao estudante expressar-se e, com o tempo, enfrentar a realidade por conta própria. Assim, o educador é como uma figura de sustentação, que oferece um ambiente seguro e incentiva a criatividade.
Aprendizagem e CriatividadeWinnicott coloca que a aprendizagem autêntica não ocorre de fora para dentro, mas de dentro para fora, a partir da capacidade criativa e espontânea do sujeito. Ao permitir e encorajar a criatividade, a escola está investindo no desenvolvimento do self do aluno, que é a base para qualquer forma de conhecimento. Um estudante que "cria" é um estudante que se apropria do conhecimento e o transforma em algo seu, construindo conexões entre o objetivo e o subjetivo. É através da criatividade que o estudante se apropria do "espaço potencial", um campo intermediário entre a realidade interna do sujeito e a externa, e é aqui que a criatividade e o aprendizado se manifestam.
Uma Educação HumanizadaO olhar psicanalítico, fundamentado nas teorias de Freud e Winnicott, oferece um olhar humanizado e profundo sobre a educação. Freud nos ajuda a reconhecer as forças destrutivas e os conflitos inconscientes que permeiam o ambiente escolar, revelando que a violência e o mal-estar são, frequentemente, sintomas de um sofrimento psíquico. Por sua vez, Winnicott nos oferece ferramentas conceituais essenciais, como o holding, a importância do ambiente e o poder da criatividade, que podem ser aplicadas para criar um espaço de acolhimento e desenvolvimento.
A psicanálise não é uma abordagem que oferece respostas prontas. Pelo contrário, ela nos convida a escutar, refletir e criar um ambiente onde o desenvolvimento humano pode acontecer de forma mais completa. Nesse sentido, a escola deixa de ser apenas um lugar para aprender conteúdos e passa a ser um espaço de apoio, onde a criatividade e o bem-estar emocional dos estudantes são valorizados. Assim, aprender é visto como um processo de entender o mundo por meio da experiência e da criação, promovendo uma formação mais integral.
Fontes de Pesquisa- FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer.
- WINNICOTT, D. W. (1971). O brincar e a realidade.
- WINNICOTT, D. W. (1965). O ambiente e os processos de maturação.
- Psicanálise e educação escolar: contribuições de Freud e Winnicott à compreensão do fenômeno da violência escolar (Periódicos Uninove). Link: https://periodicos.uninove.br/dialogia/article/view/20478
- Winnicott e o brincar (Revista Agora). Link: https://www.scielo.br/j/agora/a/fRbthyPwvJ5w9xdNz74MYJN/?lang=pt
Ana Paula Dozza
Psicóloga e Psicanalista
Kognitivconsultoria@gmail.com
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