O início do ano letivo é, para a gestão escolar, um tempo de travessia. Novas
expectativas se somam a demandas antigas, decisões urgentes convivem com processos
que exigem maturação, e a liderança é convocada a dar sentido ao cotidiano da escola
antes mesmo que tudo esteja organizado.
Liderar, nesse contexto, não é responder a tudo, mas escolher com critério. As
escolhas feitas nos primeiros meses do ano tendem a orientar prioridades, modos de
trabalho e relações institucionais ao longo de todo o percurso letivo.
Quando a aprendizagem orienta a gestão
Uma liderança escolar consistente começa ao reconhecer que a aprendizagem
deve ser o eixo estruturante da gestão. Isso significa compreender que decisões
administrativas, organizacionais e relacionais só fazem sentido quando sustentam o
trabalho pedagógico.
Pesquisas na área da liderança educacional, como as desenvolvidas por Kenneth
Leithwood, apontam que a liderança é um dos fatores intraescolares que mais impactam
os resultados educacionais. Ainda assim, no cotidiano das escolas, essa centralidade é
frequentemente tensionada pelo excesso de tarefas burocráticas.
O desafio está em proteger o tempo pedagógico da gestão e manter o foco no que
realmente importa.
Liderar não é controlar, é desenvolver pessoas
Ao contrário de modelos hierárquicos e centralizadores, a liderança educacional
contemporânea se funda como prática formativa. Liderar é desenvolver pessoas,
fortalecer equipes, criar condições para que professores e demais profissionais cresçam
juntos.
Essa compreensão dialoga profundamente com o pensamento de Paulo Freire, ao
nos lembrar que educar — e também liderar — não é transferir saberes, mas criar
possibilidades de construção coletiva. Escuta, feedback, diálogo e formação continuada
deixam de ser gestos acessórios e passam a constituir o núcleo da liderança.
A escola como espaço de construção coletiva
Nenhuma liderança se sustenta sozinha. Escolas que aprendem são aquelas em
que decisões são compartilhadas, os saberes da experiência são valorizados e o projeto
pedagógico é construído de forma coletiva.
A ideia de aprendizagem organizacional, desenvolvida por Peter Senge, ajuda a
compreender a escola como um organismo vivo, capaz de aprender com suas práticas,
erros e acertos. Nesse sentido, liderar é criar ambientes onde as pessoas se sintam
corresponsáveis pelo todo.
Liderar em contextos de complexidade
A gestão escolar acontece em contextos complexos, marcados por múltiplas
demandas, pressões institucionais e relações humanas intensas. Muitas decisões não têm
respostas prontas e exigem leitura de contexto, sensibilidade e capacidade de articulação.
O pensamento da complexidade, proposto por Edgar Morin, contribui para essa
compreensão ao afirmar que os fenômenos educacionais são interdependentes e não
podem ser tratados de forma fragmentada. Liderar, portanto, exige visão sistêmica e
disposição para lidar com incertezas.
Burocracia, tempo e sustentabilidade da liderança
Um dado recorrente nas pesquisas sobre gestão escolar revela que grande parte do
tempo dos gestores é consumida por tarefas burocráticas. Essa realidade limita o exercício
da liderança pedagógica e gera desgaste físico e emocional.
Para Andy Hargreaves e Michael Fullan, lideranças sustentáveis dependem de
tempo, apoio institucional e cuidado com as pessoas. Sem essas condições, a liderança
tende a se tornar reativa, afastando-se de seu propósito pedagógico.
O início da gestão como tempo de escuta e cuidado
Especialmente para quem assume uma nova gestão, o início do ano letivo não
deve ser marcado por mudanças precipitadas. Antes de decidir, é preciso observar. Antes
de intervir, escutar. Histórias, culturas e rotinas importam.
O filósofo da educação Jorge Larrosa nos lembra que a experiência exige tempo
e disponibilidade para ser afetado. Cuidar de si, estabelecer limites e reconhecer que nem
tudo será resolvido no primeiro ano também são práticas pedagógicas. A escola não
precisa de lideranças exaustas — precisa de lideranças sustentáveis.
Liderar com propósito
Liderar no início do ano letivo é, acima de tudo, um exercício de intencionalidade.
Escolher poucos focos, alinhar expectativas, compartilhar decisões e cuidar das pessoas
são gestos que constroem uma liderança com sentido.
Mais do que dar respostas imediatas, a liderança escolar é chamada a criar caminhos
possíveis, sustentados pelo diálogo, pela aprendizagem e pelo compromisso com o
coletivo.
Referências:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paz e Terra, 1996.
HARGREAVES, Andy; FULLAN, Michael. Professional capital: transforming
teaching in every school. New York: Teachers College Press, 2012.
LARROSA, Jorge. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte:
Autêntica, 2017.
LEITHWOOD, Kenneth et al. How leadership influences student learning. New York:
The Wallace Foundation, 2004.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez,
2000.
SENGE, Peter. A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende. São
Paulo: Best Seller, 2006.